Nunes Marques e a Confiança ou Não nas Urnas Eletrônicas
O novo
Ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Nunes Marques, poderá questionar
a segurança e confiança nas urnas eletrônicas, num país politicamente dividido sobre o tema. O
modelo top-down (de cima para baixo) de introdução desta tecnologia no Brasil tornou-se
uma caixa preta do TSE, dando margem as divergências existentes.
Assim
sendo, nosso sistema de votação promete eleições matematicamente seguras, mas
tem uma dependência de criptografia complexa, que cria uma "caixa
preta", forçando a confiança cega
em softwares opacos ou especialistas externos, falhando, em última análise, em
construir uma confiança pública genuína.
Portanto, foi
o atual modelo de voto eletrônico que deu origem ao que vem acontecendo,
incluindo a reação do governo anterior propondo um modelo mais seguro, que
permitia a auditagem do voto eletrônico, mas sem uma observação da literatura e
do que vem acontecendo no mundo com esta tecnologia. A chance de mudança foi
perdida.
Mesmo
assim, no governo Bolsonaro, o debate sobre a insegurança do voto eletrônico se
acirrou no país. Há mais de 20 anos publicamos que o voto eletrônico pode ser
um grande risco à democracia, criticando a forma como foi introduzido no
Brasil. Infelizmente, o tema não foi ainda discutido de forma
satisfatória, junto da academia e da
sociedade. É mais do que necessário uma mudança do modelo existente.
O debate
não deve ser apenas técnico, mas jurídico, filosófico e sociológico. Na Alemanha,
por exemplo, o voto eletrônico tornou-se inconstitucional, em 2005, quando a
organização do próprio processo eleitoral não cumpriu os requisitos de
transparência e as máquinas eletrônicas controlavam tudo. Na Holanda, o voto
eletrônico foi proibido por falta de segurança, o mesmo acontecendo em outros
países.
É possível
que o Tribunal Constitucional da Alemanha tenha conceituado o voto eletrônico
de forma adequada ao afirmar que o processo eleitoral eletrônico deve ser o
mais transparente possível para todos os cidadãos, inclusive aqueles sem
conhecimento técnico específico sobre o assunto.
Segundo o Tribunal,
a votação eletrônica é possível e aceitável desde que seja realizada de forma a
permitir a auditoria do processo eleitoral. Como exemplo, cita-se a preservação
dos votos registrados em formato que não seja eletrônico.
Embora o
Tribunal Constitucional da Alemanha não proíba ou negue, em princípio, o voto
eletrônico, até o momento não foram realizadas outras eleições com esse método
no país. Além disto, a preferência dos eleitores não é por votação eletrônica e
as tecnologias existentes não atendem aos requisitos constitucionais de transparência
para todos os cidadãos, incluindo aqueles sem conhecimento técnico específico
sobre o tema.
Tanto no
Brasil como na Alemanha não há exigência constitucional de que o resultado das
eleições esteja disponível logo após o encerramento da votação. Um fato curioso
observado na Alemanha foi que eleições anteriores demonstraram que, mesmo sem o
uso de urnas eletrônicas, o resultado provisório oficial pode, em regra geral,
ser apurado em poucas horas.
Neste caso,
o Ministro Nunes Marques poderá apresentar um novo modelo de voto eletrônico
para o Brasil, que poderá ser seguro, confiável, auditável, mais barato e
economicamente adequado para as finanças do país.
O modelo de voto eletrônico proposto no governo Bolsonaro foi facilmente questionado pelo
STF. Embora tornasse o voto auditável, ele tornava-se violável pela urna
eletrônica. Como vimos acima, o Tribunal Constitucional alemão fala de voto
auditável, desde que se mantenha a “preservação dos votos registrados em
formato que não seja eletrônico”.
A divisão
existente no Brasil é por um voto eletrônico em que se sinta confiável. Em se
tratando de um sistema confiável, alguns pesquisadores estão propondo um sistema
de voto eletrônico híbrido, que adote o papel e o eletrônico.
O Canada, depois
de avaliar boas práticas de sistemas da Suíça, Noruega, Australia entre outros,
adotou um sistema híbrido, que parece ser confiável e aceito pela sociedade. O
eleitor usa cédula com código de barras para votar, sendo a apuração por
computadores, logo após o encerramento da eleição. Quando existe uma pequena
diferença de votos entre candidatos, as cédulas de papel serão usadas para confirmar o eleito.
Por fim, se
o voto eletrônico sempre foi visto como um risco à democracia, agora com a
Inteligência Artificial os danos potenciais serão maiores. Infelizmente
nossos legisladores estão muito focados
em lidar com deepfakes de si mesmos, mas menos nos danos da inteligência artificial e nos fornecedores privados de urnas eletrônicas que podem capturar
todo processo eleitoral.
Já vivenciamos as tecnologias reforçando poderes institucionais, mas com a inteligência artificial, responsável por uma temível concentração de poder econômico e social nas mãos de meia dúzia de pessoas, já se percebe a pior desigualdade social e sujeição humana da história. Com isto, esquecem as pessoas e mantem consumidores passivos, e miseráveis, reforçando vidas já dilaceradas por décadas.

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